18.12.13

Alma

Naquele momento, todas faziam algo.

Enquanto Anita lia um romance na velha poltrona do sótão, Anne a pintava em mais um de seus quadros inacabados. Melina estava encostada na janela, olhando para a rua, esperando Louise.

Na verdade, ela não esperava nada.

Quando Louise chegou, ninguém a vira, ofegante, dizendo: “alma”. E nem assim Melina acordou do seu transe.

Anita fechou o livro com desconfiança e questionou a recém-chegada, mas quem respondeu foi Melina: “nossos nomes”.

Anne deu um sorriso satisfeito e esperto. Os olhos de Anita brilharam. Louise olhou para a plagiadora com um ar confuso e certamente magoado.

Ela descobrira sua novidade.

Caminhou em sua direção e a encarou: “Quando percebeu isso?” – perguntou. Melina só abaixou os olhos trêmulos de indiferença. Compreendera tudo. Louise também entendera o que lhe cabia – que não entenderia nada – e se afastou. Anita alegrou-se. Colocou música de seu agrado e começou a dançar em volta de Louise. Anne fitava aquela que era seu alter ego reflexivo e que acabara de voltar ao seu estado catártico inicial. Um abraço forte e mudo somente. Convidou-a para dançar. Dançaram com os olhos fixos na janela.

17.12.13

Para dançar em volta do mundo

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Sempre fui tímida.

Entre os amigos, na escola, nas festas, no shopping center, em casa. Fui representante de sala, oradora da turma, preferida dos professores, mas sempre fui tímida. Discutia com os colegas, subvertia as regras, vomitava no bar, mas sempre fui tímida. Fazia isso, fazia aquilo, corria pra lá, voltava pra cá, mas sempre fui tímida. Era santa, era puta, às vezes doce, muitas vezes desagradável, mas sempre fui tímida.

Não queria falar, não tinha segredos, não queria saber, não tinha pudores, mas sempre, sempre, sempre fui tímida.

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Sempre gostei da água.

Na banheira, mar, banho de mangueira.
Me sentia, enfim, a sós com a vida, criança uterina.
A própria vida me cercava por todos os lados, me inundava, me enchia. Eu podia ser aquilo que quisesse longe de toda superficialidade, bem fundo em mim. Podia ser sereia ao invés de santa, puta ou princesa: podia fugir pela imensidão. A terra não me atraía — me atraía, sim, literalmente, pela gravidade das coisas físicas, mas não se fazia ouvir como os sete mares. O corpo que flutua, os movimentos dos membros, a graça de bailar todo o tempo onde o tempo não existe. Queria dançar com baleias, saltar com os golfinhos e migrar oceanos sem precisar por os pés no chão.

Nunca gostei de ter os pés no chão.

A segurança da firmeza da materialidade me assustava. Sentir, o tato, tocar o que era real me desagradava.

Quando eu morrer, não me queimem — tenho medo de fogo, fobia de calor, pavor de sentir a pele ardendo. Não me enterrem, não quero estar a sete palmos da realidade, soterrada por tudo que não consegui ser. Quando eu morrer, me levem pro mar, me ofereçam à Iemanjá, que é lá que minh’alma vive, que é lá que quero estar.

Para todo o sempre,
Amém.

24.11.13

Má formação da vértebra L5

A dor física é lancinante. Te deixa em miúdos, encolhido, pequeno feto abortado. Não te deixa andar, você sente cada membro queimando a cada passo. É o inferno. Irradia de um ponto e explode, expandindo-se fractalmente em mil ramos metálicos. Você sente cada veia e artéria crescendo e inchando e os nervos se esticam como um elástico pronto a lançar uma pedra que nunca é lançada. O elástico se estica infinitamente e a qualquer momento ele pode se romper — mas nunca se rompe. A dor física cheira a suor frio e é salgada como o mar — porque todo mundo tem um mar dentro de si — e afoga como o mar também. Você só tem vontade de chorar ao se apoiar em cada ombro que te oferecem, porque você é incapaz e inútil. Você sente que vai morrer em breve e lembra que costumava sonhar com uma morte indolor — e você prefere mesmo morrer para dar fim ao sofrimento. Você toma todos os remédios que não deveria porque te iludem com a segurança e o conforto e o máximo que consegue é outra dor — a de estômago. É impossível levantar-se, sentar-se, continuar deitado. Nenhuma posição alivia mais que o grito. A gente só grita pra dizer que não aguenta mais, é um apelo, não um desabafo. É o inferno, mais uma vez, e não é nada comparado ao inferno que te prometeram — você só consegue pensar no que poderia ser pior e não consegue chegar a uma resposta, porque seu corpo não responde, mas eu sei.

A dor física não é um décimo daquela mental.

05.11.13

Nunca é o suficiente.
Escrever é uma coisa tão pretensiosa e mesquinha que eu, no topo da autoconsciência da minha mediocridade, pergunto-me porque o faço.
Para quem?
Não quero enganar ninguém, seu moço, veja bem. É tudo questão de ponto de vista. Não escrevo diariamente, não sou escritora, não é meu ganha-pão, não é minha profissão — por enquanto. Já sonhei que viveria disso para sempre. As coisas mudaram, hoje é meu passatempo preferido.
É desastroso e inconveniente quando seu passatempo cansa teu cérebro. Eu chegara à conclusão de que não poderia escrever se não conseguisse escrever.
Errei. Desconheço o valor da verdade neste caso e não me sinto apta a conhecê-lo no momento. Apenas descobri que posso sonhar um pouco mais.

Nunca é o suficiente.

Escrever é uma coisa tão pretensiosa e mesquinha que eu, no topo da autoconsciência da minha mediocridade, pergunto-me porque o faço.

Para quem?

Não quero enganar ninguém, seu moço, veja bem. É tudo questão de ponto de vista. Não escrevo diariamente, não sou escritora, não é meu ganha-pão, não é minha profissão — por enquanto. Já sonhei que viveria disso para sempre. As coisas mudaram, hoje é meu passatempo preferido.

É desastroso e inconveniente quando seu passatempo cansa teu cérebro. Eu chegara à conclusão de que não poderia escrever se não conseguisse escrever.

Errei. Desconheço o valor da verdade neste caso e não me sinto apta a conhecê-lo no momento. Apenas descobri que posso sonhar um pouco mais.

02.10.13

Melina

Não que­ria vol­tar mas me trou­xe­ram à for­ça com a cos­tu­mei­ra tru­cu­lên­cia. Não que­ria res­pi­rar de no­vo. Re­nas­cer, re­a­pren­der. Tor­na­ra-me ci­men­to, con­cre­to, fer­ro, aço, dor ¹.

A in­fil­tra­ção no te­to de­sa­gua­va na go­tei­ra di­an­te da ja­ne­la; ela nar­ra­va o tem­po, am­pu­lhe­ta dos des­gra­ça­dos. Go­ta de­pois de go­ta de­pois de go­ta. Nun­ca al­can­ça­vam o chão: mi­ra­vam a ca­be­ça, sem­pre cer­tei­ras – o som es­cor­ria pe­los ca­be­los e in­va­di­am os ou­vi­dos. Téc­ni­ca de tor­tu­ra con­fes­sa. O ruí­do vai eco­ar pra sem­pre aqui den­tro - quar­to va­zio e oco, não so­brou na­da, inun­da­do e di­luí­do. Cer­ta vez le­van­tei da ca­ma e ha­vi­am dois pés flu­tu­an­do so­bre mi­nha ca­be­ça. Era o fim, tu­do es­cor­reu pe­los olhos, pe­los po­ros. Pi­e­da­de, pi­e­da­de des­sa al­ma! – elas cla­ma­vam – al­ma aqui nin­guém tem mais, não, aqui tá to­do mun­do é mor­to. Eu mor­ria to­do dia, pi­e­da­de, pi­e­da­de da mi­nha al­ma!

Pas­sa­ram-se 23 anos. Nem vi­va, nem mor­ta – mo­ri­bun­da. Ama­re­la, fra­ca, ca­be­los cur­tos, unhas roí­das. Co­mo eu era bo­ni­ta quan­do me­ni­na! O sor­ri­so en­di­a­bra­do, os olhos pro­fun­dos e trans­lú­ci­dos. Ago­ra tu­do é ra­so, não ba­nho um de­do, não se atra­ves­sa a fron­tei­ra: sou es­tor­vo, bar­rei­ra. Tu­do doi: o sol der­re­te, a lua ce­ga, o ven­to ma­chu­ca, a chu­va quei­ma, ago­ra a pe­le es­tá sol­tan­do - co­bra po­dre san­gran­do cheia de pus e me­do.

Ele me de­vol­veu além do que me­re­ci. O in­fi­ni­to pre­sen­te so­ma­va-se ao in­fi­ni­to d’ou­tro­ra – ca­da au­ro­ra uma sen­ten­ça: per­pé­tua, per­pé­tua, per­pé­tua.

Só se ma­ta uma vez, mas se mor­re mui­tas.

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¹ Parte de projeto talvez iniciado.

22.07.13

Acidente

Eles me perguntavam o que aconteceu, como me machuquei.
Ele se prontificou a responder “um acidente”.

***

- Sabe, isso aqui não foi realmente um acidente.
- Eu sei.

***

Ele sabe.

27.05.13

Esquizofrenia

Seu nome era Bob¹.
Como todo bom cachorro noventista, se chamava Bob.
A norte-americanização dos cachorros, a globalização dos pets.
Quando foi que os cachorros deixaram de ser Totós e Bolotas para transformarem-se em Bobs?
Provavelmente na época de algum desenho animado matinal.

Bob era pequeno, um vira-latas semelhante a um pinscher e talvez o fosse, na verdade. Preto. Chato, mas leal. Valente, com coragem inversamente proporcional ao seu tamanho. Não largava a garota e ameaçava com seus dentinhos qualquer um que se aproximasse. Era o seu bem mais precioso, aquelas mãos tão pequeninas, mal falava a língua humana, cambaleava com as perninhas roliças e foi agraciada com bochechas enormes. Bochechas, coisa engraçada, pensava Bob, só servem para ser apertadas de maneira inconveniente por humanos maiores. Identificavam-se um com o outro porque tudo parecia tão grande aos seus olhos. Bob sabia que sempre teria uma companheira de pequenices.

Infelizmente, não durou muito tempo. Enquanto a garota crescia, Bob só tornava-se mais rabugento. A garota passava a tarde inteira na escola; Bob sentia-se abandonado, mas não conseguia tratar com indiferença o regresso dela. Comemorava e dava bronca ao mesmo tempo, reivindicava — recebia em troca um carinho na barriga, o que já era mais do que o suficiente. Trocavam confidências, Bob ouvia cada uma das dúvidas e lhe respondia com o olhar canino sapiente. Era seu mentor. Por muito tempo, seu único grande amigo. Não tinham mais vontade de brincar juntos correndo pelo quintal, há algum tempo não eram mais crianças, e muitas vezes só faziam companhia um ao outro em meio a um silêncio confortável e aconchegante permitido apenas àqueles que sabem se comunicar com o piscar dos olhos, a respiração, as batidas cardíacas e os pelinhos do braço arrepiados.

Bob não queria partir. Ela sabia que esse dia se aproximava.

Viveu treze anos.
Nunca foi esquecido.

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¹ Parte de projeto não iniciado.

19.05.13

82 Pb 207,2

É o enfado do fim de semana.

Nem o gato aninhado entre minhas pernas faz questão de continuar. Sai a passeio às dez da noite, sem compromisso, bicho noturno, ardiloso, gatuno.

E o tempo só passa, nada faz além de passar e nem sei como ele passa; está tão cansado de fazer nada além de passar que só faz passar vagaroso, lento, frouxo.

Eu sei, eu poderia continuar a ler Kundera, estudar Teoria Literária, tomar um banho quente, pegas as mais belas roupas e sair pela cidade – há todas essas loucas opções da megalópole – megalomaníacas e estridentes como acusa a juventude – mais do que toda a área urbana suporta – mas a cama é um ímã e eu sou chumbo.

Sou puro chumbo.

E já é quase segunda.

27.04.13

Vista cansada

- A vista tá cansada – ela diz.

Não que estivesse em idade avançada, muito pelo contrário. Era que carregava um mundo nas costas, todo distorcido. Isso cansava a vista, depois o peso lhe causava dor. Acostumou-se. Não questionava, só caminhava – e agora aprendeu a levantar-se ao cair, o que nunca fizera antes.

Um dia, lá pelas tantas da noite, tudo escuro, não queria parar para descansar, tropeçou, caiu, deixou o mundo desabar inteirinho, doeu, chorou, aí desistiu, não queria levantar mais. Não viu o presente que a vida deixara ali no cantinho – era só tirar a mão do rosto e estendê-la – a gente ignora, não enxerga, mas tá lá.

Cansada.